Estudo morfológico comparativo do mecanismo de defesa química cutânea em duas espécies de sapos amazônicos (Rhinella marina e Rhaebo guttatus)

A pele dos anfíbios é caracterizada pela presença de inúmeras glândulas granulosas (ou de veneno). Tais glândulas podem se distribuir por todo o corpo, ou ainda, acumular-se em determinadas regiões, estrategicamente posicionadas contra a ação de predadores. Esse é o caso das macroglândulas parotóides dos sapos (Família Bufonidae), localizadas dorso-lateralmente na região pós-orbital. Quando importunados, os sapos inflam o corpo e posicionam as suas parotóides em direção ao agressor. O envenenamento, entretanto, só ocorre, se o predador morder o sapo e a secreção das glândulas entrar em contato principalmente com a sua mucosa oral, configurando a defesa passiva típica dos anfíbios. Contrariando tal passividade, o sapo amazônico Rhaebo guttatus é capaz de ejetar seu veneno voluntariamente a grandes distâncias, através de suas parotóides. Com base nessas características, o principal objetivo desse trabalho foi estudar a morfologia das parotóides de R. guttatus através de histologia e ultraestrutura, comparando-a com a de Rhinella marina, espécie simpátrica e de defesa passiva típica. Procurou-se caracterizar as diferenças estruturais que possibilitam ejeção voluntária de veneno. Adicionalmente, foram estudados e comparados entre essas duas espécies o comportamento defensivo, a morfologia das glândulas cutâneas da pele, a bioquímica da secreção das parotóides (através de SDS-PAGE, HPLC e espectrometria de massas), bem como as atividades tóxicas (letalidade, edema, nocicepção, hemorragia e necrose) induzidas por essas secreções em modelos animais. A histologia demonstra que a morfologia geral das parotóides e o seu conteúdo histoquímico são muito semelhantes entre as duas espécies. A derme que sustenta as unidades secretoras formando os alvéolos é composta principalmente por fibras colágenas densas, o que confere à macroglândula uma aparência de favo de mel. Cada alvéolo é, basicamente, uma grande glândula sincicial, que se conecta ao exterior por um duto obstruído por um plug epitelial. Ao contrário do que ocorre em R. marina, a parotóide de R. guttatus é aderida à escápula. Essa característica anatômica associada ao comportamento de baixar a cintura escapular e de inflar os pulmões, deve conferir ao animal a possibilidade de ejetar voluntariamente o veneno. Esse veneno, tanto em R. marina como em R. guttatus é composto basicamente por proteínas, aminas biogênicas e esteróides (bufadienolídeos), apresentando, porém, diversas moléculas exclusivas de cada espécie. Quando comparado com R. marina, o veneno de R. guttatus é menos letal e capaz de induzir edema e intensa nocicepção. Nenhum dos dois venenos, no entanto, foi capaz de causar hemorragia ou necrose. R. guttatus foi descrito há mais de 200 anos e praticamente não existe informações sobre a sua biologia e história natural. Diante do seu inusitado mecanismo de defesa, é de se esperar que o arsenal químico utilizado na sua defesa seja diferente dos outros sapos, com defesa passiva. Como o comportamento de ejeção voluntária de veneno só está descrito em R. guttatus, seria importante para a complementação desse trabalho, estudar o mecanismo defensivo de outras espécies do gênero. A ejeção voluntária de veneno seria, assim, inserida em um contexto mais amplo, abrindo novas perspectivas de estudo.
Keywords
Venenos;  Anura;  glândula veneno;  toxina;  parotóide;  Poisons;  Anura;  poison gland;  toxin;  parotoid

Other Titles
Comparative study of the cutaneous chemical defensive system in two species of amazonian toads (Rhinella marina and Rhaebo guttatus)
metadata.dc.contributor
Document type
Thesis
Advisor
Jared, Carlos
Level
Mestrado
Institution
Instituto Butantan
Place
São Paulo
Program
Programa de Pós-Graduação em Ciências – Toxinologia (PPGTOX)
Submission Date
2012
Metrics
Rights
Open Access
URI

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